Existe algo além da natureza? por C. S. Lewis

por: C. S. Lewis

As ciências estudam a natureza e a questão é se há algo além da Natureza – qualquer coisa ‘do lado de fora’?

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“Milagres”, disse meu amigo. “Oh! Não me venha com essa! A ciência já nocauteou essa ideia. Sabemos que a Natureza é governada por leis fixas.”

“Mas, as pessoas não sabem disso desde sempre?” perguntei.

“Meu Deus, não,” disse ele. “Por exemplo, tome uma estória como a do Nascimento Virginal. Sabemos agora que tal coisa não poderia acontecer. Sabemos que deve haver um espermatozoide proveniente de um homem.”

“Mas, escute aqui,” disse eu, “e José?”

“Quem é ele?” perguntou meu amigo.

“Ele era o marido da Virgem Maria. Se você ler a história na Bíblia você verá que quando ele percebeu que sua noiva ia ter um bebê, ele decidiu cancelar o casamento. Por que ele fez isso?”

“Não faria o mesmo a maioria dos homens?”

“Qualquer homem faria,” disse eu, “desde que ele conhecesse as leis da Natureza – em outras palavras, desde que ele soubesse que uma garota não teria um filho a menos que tivesse dormido com um homem. Mas, de acordo com sua teoria, as pessoas antigamente não sabiam que a Natureza era governada por leis fixas. Estou apenas observando que a história mostra que José sabia tanto a respeito da lei quanto você.”

“Mas, ele veio a acreditar, depois, no Nascimento Virginal, não foi?” disse ele.

“Exatamente. Mas, ele não fez isso porque ele estava de alguma forma iludido sobre a origem normal das crianças. Ele acreditou no Nascimento Virginal como algo sobrenatural. Ele sabia que a Natureza trabalha de forma fixa e regular: mas, ele também acreditou que existia alguma coisa além da Natureza que podia interferir com o trabalho dela – desde fora.” disse eu.

“Mas, a ciência moderna tem mostrado que não existe tal coisa.” disse ele.

“Será?” disse eu. “Qual das ciências?”

“Oh, bem, isso é uma questão de detalhe,” disse meu amigo. “Eu não posso lhe dar capítulo e versículo de cor.”

“Mas, você não vê que”, disse eu, “a ciência não poderia nunca mostrar algo desse tipo?”

“E por que não?” disse ele.

“Porque as ciências estudam a Natureza. E a questão é se há algo além da Natureza – qualquer coisa ‘cio lado de fora’. Como você poderia descobrir isso, simplesmente estudando a Natureza?”

“Mas, não descobrimos que a Natureza deve trabalhar de uma forma absolutamente fixa? Quero dizer, as leis da Natureza nos dizem não somente como as coisas acontecem, mas também como elas devem acontecer. Nenhum poder pode alterá-las.” disse ele.

“O que isso quer dizer?” disse eu.

“Olhe,” disse ele. “Essa ‘coisa externa’ de que você fala pode fazer dois e dois resultar em cinco?”

“Bem, não,” disse eu.

“Muito bem,” ele disse. “Penso que as leis da Natureza são realmente tal como dois e dois dando quatro. A ideia de elas serem alteradas é um absurdo tal como o é a alteração das leis da aritmética.”

“Um momentinho,” disse eu. “Suponha que você ponha cinqüenta centavos numa gaveta hoje e cinqüenta centavos na mesma gaveta amanhã. As leis da aritmética lhe garantem que você vai achar um real depois de amanhã?”

“Claro,” disse ele, “desde que alguém não mexa na minha gaveta.”

“Ah, mas essa é toda a questão,” disse eu. “As leis da aritmética podem dizer o que você encontrará, com absoluta certeza, desde que não haja interferência. Mas, o ladrão não terá desobedecido às leis da aritmética -somente às leis do país. Agora, não estão as leis da Natureza no mesmo barco? Elas não dizem tudo o que acontecerá desde que não haja interferência?”

“O que você quer dizer?” disse ele.

“Bem, as leis dirão a você como uma bola de sinuca viajará numa superfície lisa se você a atingir com o taco, de uma forma particular -mas, somente se ninguém interferir. Se, depois de ela estar em movimento, alguém esbarrar nela – aí então, você não terá o resultado predito pelo cientista.”

“Claro que não. Ele não permitiria truques grosseiros como esse.” disse ele.

“Pois então, e da mesma forma, se houvesse algo externo à Natureza, e se essa coisa interferisse – os eventos que o cientista previsse não aconteceriam. Isso seria o que chamamos de milagre. Num determinado sentido, não seria uma desobediência às leis da Natureza. As leis dizem a você o que acontecerá se nada interferir. Elas não dizem se algo irá interferir. Quero dizer, não é o especialista em aritmética que vai lhe dizer qual a probabilidade de alguém mexer na sua gaveta; um detetive seria mais útil. Não é o físico que poderá dizer-lhe qual a probabilidade de eu pegar um taco e arruinar sua experiência com as bolas de sinuca; é melhor você perguntar a um psicólogo. E não é o cientista que lhe dirá qual a probabilidade da Natureza sofrer uma interferência externa. Você deve consultar um metafísico.”

“Essas são observações mesquinhas,” disse meu amigo. “Veja você, a real objeção vai muito mais longe. Toda a imagem do universo que a ciência tem nos dado prova ser uma tolice acreditar que o Poder por trás de tudo poderia estar interessado em nós, desprezíveis criaturinhas engatinhando por sobre um planeta completamente ordinário. Isso tudo foi, obviamente, inventado por pessoas que acreditavam que a terra era chata e que as estrelas estavam a apenas alguns quilômetros de distância.”

“Quando foi que se acreditou nisso?” perguntei.

“Ora essa, todos aqueles antigos cristãos sobre os quais você está sempre falando. Quero dizer, Boécio, Agostinho, Tomás de Aquino e Dante.” disse ele.

“Desculpe-me”, disse eu, “mas esses são alguns dos poucos indivíduos sobre os quais eu conheço alguma coisa.”

Estendi meu braço em direção a uma estante. “Você vê este livro,” eu disse, “o Almagesto de Ptolomeu. Você o conhece?”

“Sim,” disse ele, “Foi o manual astronômico padrão usado na Idade Média.”
“Bem, leia isso”, disse eu, apontando para o Livro I, capítulo 5.

“Á Terra,” leu em voz alta meu amigo, hesitando um pouco em sua tradução do latim, “a terra, em relação à distância das estrelas fixas não tem dimensão apreciável e deve ser tratada como um ponto matemático.”

Houve um momento de silêncio!

“Ele realmente sabia disso naquele tempo?” disse meu amigo. “Mas, nenhuma das modernas enciclopédias – nenhuma das histórias da ciência – sequer mencionam o fato.”

“Exatamente,” disse eu, “Deixarei você refletir sobre a razão disso. É como se alguém quisesse encobrir esse fato, não parece? Fico imaginando o porquê.”

Houve um outro momento de silêncio!

“De qualquer forma,” disse eu, “podemos agora enunciar o problema precisamente. As pessoas usualmente pensam que o problema seja como conciliar o que nós sabemos sobre o tamanho do universo com nossas idéias tradicionais de religião. Isso está longe de ser o problema. O problema real é este:
O tamanho enorme do universo e a insignificância da terra são fatos conhecidos por séculos e ninguém nunca imaginou que eles tivessem algo a ver com questões religiosas. Então, há menos de cem anos, eles repentinamente são tirados da cartola como um argumento contra o cristianismo. E as pessoas que os tiraram da cartola, cuidadosamente, ocultam o fato de que eles são conhecidos há muito tempo.

Não lhe parece que todos vocês ateus são pessoas estranhamente ingênuas?“.

 

Fonte:

Trecho extraído de “God in theDock: Essayson Theology and Ethics” (Deus no banco dos réus: ensaios sobre teologia e ética). Organizado por Walter Hooper. Grand Rapids: Eerdmans, 1970.

Traduzido em português por Josemar Bessa [link]

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