Um hospício a céu aberto

Sabe aquela sensação de que as coisas estão estranhas? Mas eu olho em volta e todos estão agindo como se tudo estivesse normal. Às vezes me pergunto, será que é só comigo?

O dia amanheceu e eu fui tomar meu café da manhã, então ligo a TV para ver o que acontece no mundo. Corrupção, hospitais lotados, escolas precárias, mortes, assaltos, sequestros… E de repente a jornalista abre um sorriso e diz: –

“Agora vamos falar das olimpíadas! ”.

O país no mais absoluto caos e ela quer falar sobre as olimpíadas como se esse fosse o assunto mais relevante do momento. Se as pessoas estão morrendo das formas mais banais todos os dias não importa, vamos comentar a posição da mão do atleta quando vai pegar as argolas para executar um movimento.chartAh não! Vou para a academia, quem sabe na esteira eu pare de pensar nas mazelas do mundo. No caminho toca meu celular, eu abro a mochila e atendo o telefone e de repente para uma moto ao meu lado e ouço uma voz:

“Perdeu, perdeu, passa o celular”.

Recuperada do susto vou à delegacia prestar queixa. Começo a contar a história e o escrivão me olha e diz:

“Também né moça, foi atender o celular na rua”.

Então agora virou crime atender o celular na rua? E as pessoas acham normal isso. Têm vários jornais que ainda trazem matérias sobre como evitar assaltos:

“antes de entrar em casa olhe em volta para ver se não tem alguém suspeito, se estiver chegando em casa de carro e observar algo suspeito dê mais uma volta na quadra.”

Se despedir do namorado dentro do carro em frente ao portão jamais! Tem que parar o carro, abrir o portão e entrar correndo, ficar rezando para que nada aconteça no caminho de volta e esperar a ligação que confirma que ele chegou com vida em casa.

E as pessoas estão tão anestesiadas com toda essa violência que nem percebem mais a realidade. Dizem que são os novos tempos como se a evolução do ser humano fosse virar bandido. Então é assim? Antigamente as pessoas eram tapadas e honestas, agora evoluímos somos uma sociedade de bandidos.

Certamente vai ter alguém lendo este texto e pensando:

“ah tá, como se antigamente não houvesse crimes”.

Vejam a que ponto chega a alienação! Será que elas não percebem o crescimento exponencial da criminalidade? Será que estão acreditando no que pensam? Será que não notam que estão tentando justificar o injustificável?

Esta é uma história fictícia, mas poderia muito bem ser real. Vivemos em um tempo de total inversão de valores, uma época onde a mentira muitas vezes tem mais credibilidade do que a verdade. O noticiário da TV, tido por muitos, infelizmente, como fonte de informação, distorce as notícias o tempo todo transformando os acontecimentos de modo que eles reforcem o conceito que os poderosos desejam incutir na mente das pessoas incautas.

As notícias de desgraças já estão tão comuns que as pessoas não percebem mais o disparate que é dar uma notícia de morte e em seguida abrir um sorriso para mudar de assunto, e, via de regra, o outro assunto é alguma frivolidade. Mesmo que seja esfregada em nossa cara, a violência já não toca mais o coração das pessoas que preferem distrair-se com outros assuntos mais leves.

Chegamos ao cúmulo de culpar a vítima pelo crime! As pessoas recebem recomendações de como se comportar para evitar assaltos e quando são assaltadas ouvem o famoso “eu te avisei”. Será mesmo que já não percebemos mais o absurdo dessa realidade?

Não faz muito tempo, o porte de armas em nosso país era muito mais acessível, após um plebiscito em que a população votou pela manutenção do direito de andar armado o governo simplesmente implementou o famigerado Estatuto do Desarmamento. Após alguns anos o resultado que vemos é o aumento vertiginoso da criminalidade. Fica evidente que a medida não é eficiente para diminuir a violência, muito pelo contrário, o cidadão desarmado é uma vítima muito mais vulnerável aos bandidos.

E mesmo assim o que vemos na mídia é a insistência em dar dicas para que as pessoas evitem os assaltos; nem sequer ousam em aventar a possibilidade de recomendar o porte de arma de fogo como medida eficaz. E nos casos em que a vítima reage e consegue deter o criminoso ela sofre um processo pela sua reação, lembremos o caso do cunhado de Ana Hickman.

É como se eu estivesse vivendo em um hospício a céu aberto, mas nesse hospício a louca sou eu por não me adaptar aos novos tempos.

Será que ninguém mais vê o que eu estou vendo? Será mesmo que a louca sou eu? O único alento que me resta nesse momento é saber que Deus existe, que tudo isso já estava escrito há muito tempo e que no final o bem vencerá.

“E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará. Mas aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo. ” Mateus 24:12,13

Um hospício a céu aberto
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Paula Marisa

Paula Marisa

Graduada em Educação Física, com licenciatura plena, especialização em supervisão escolar e orientação educacional, também é professora na rede municipal de ensino em Canoas/RS. Para saber mais sobre Paula, acesse a página Equipe no rodapé do site.

4 comentários em “Um hospício a céu aberto

  • 11 de agosto de 2016 em 3:19 PM
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    Infelizmente vivemos nesse hospício. Tenho medo que as coisas possam piorar.

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  • 11 de agosto de 2016 em 5:19 PM
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    Você não sente isso sozinha. Sabe como é ler algo e ver tudo o que se passa em sua mente sendo reproduzido com perfeição por outra pessoa? Foi o que me proporcionou agora.

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  • 11 de agosto de 2016 em 7:13 PM
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    A gente fica aqui preso no nosso pequeno aquário, e acaba achando normal o que é na verdade um sintoma de uma doença grave.

    A empolgação com a abertura das Olimpíadas é a síntese da mentalidade brasileira. A despeito da ausências das verdadeiras referências nacionais e a distorção dos fatos históricos, juntamente com a exaltação de apenas um pequeno aspecto, e não o mais louvável, do país, as pessoas ficaram estupefatas com o show estético apresentado. Assim somos nós! A realidade, os fatos e a verdadeira história nada significam. O que vale mesmo é a superficialidade das aparências. E isto é tudo o que importa.

    A civilização vive o seu canto do cisne.

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  • 12 de agosto de 2016 em 12:58 AM
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    Me sinto tāo louca quanto você…Toca aqui ✋

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