Quem incitou Davi a realizar o censo de Israel, Deus ou Satanás? E qual era o número real do exército israelita?

Existem alguns textos bíblicos que relatam os mesmos acontecimentos em livros diferentes, isso é chamado de paralelismo bíblico. Mas algumas vezes (como nos casos que vamos abordar) eles diferem em detalhes, dando a impressão que se contradizem. Como são textos muito antigos e muitas vezes escritos por pessoas diferentes, de épocas distintas, fica difícil ter a real intenção do “porque” há diferença entre eles já que tratam do mesmo assunto.

Ademais, quando estudamos uma sociedade antiga como a dos hebreus, que tinha sua forma distinta de tratar alguns temas e relatar acontecimentos, essa tarefa de interpretação se torna um tanto quanto difícil. E se é difícil até para quem os estuda, imagine para quem não? Por isso, quando explicamos determinados temas aparentemente “contraditórios” ou “problemáticos” que aparecem na Bíblia, algumas pessoas tendem a nos acusar de distorcer os fatos como uma forma de eliminar ou minimizar as “contradições” ou “problemas”. Porém, na maioria das vezes, essas aparentes contradições ou problemas são explicadas quando usamos os textos originais como referência.

Por outro lado, devemos entender que apesar do fato de que na questão da fé os judeus tenham formado o alicerce para o cristianismo, nas questões filosóficas e culturais, o cristianismo trouxe consigo mais “bagagem” grega e romana do que judaica. Por isso, muitas vezes é difícil entender com nossa mente ocidental como pensava uma pessoa de mente oriental e o inverso pode ser igualmente verdadeiro. Então, mediante ao que explicamos, vamos entender se a questão que trataremos a seguir é uma contradição bíblica ou não.

Primeira aparente contradição entre os livros de 2 Samuel 24 e 1 Crônicas 21:
Quem incitou a Davi a levantar o censo de Israel: Deus ou Satanás?

Vamos aos textos:

Mais uma vez, irou-se o Senhor contra Israel. E incitou Davi contra o povo, levando-o a fazer um censo de Israel e de Judá.  2 Samuel 24:1 (NVI)

Satanás levantou-se contra Israel e levou Davi a fazer um recenseamento do povo.  1 Crônicas 21:1 (NVI)

Será que existe contradição entre esses dois textos? Como pode um texto afirmar que foi Deus quem incitou Davi e o outro texto dizer que foi Satanás que levou Davi a fazer algo que Deus não queria?

Entendemos que não há contradição entre os dois. Por que? Como explicamos anteriormente, a forma de pensar dos hebreus antigos é diferente da forma como pensamos hoje, ainda mais quando se trata de questões voltadas ao bem e mal. O raciocínio hebraico coloca Deus como responsável por tudo que acontece no mundo, pois eles entendiam que se Deus não quisesse que algum mal acontecesse, não aconteceria, logo Deus queria que tal mal acontecesse, tudo por conta de Sua Soberania.

Era normal o pensamento de colocar a responsabilidade em Deus em algo que ele não impedia de acontecer.

Hoje entendemos que existem coisas ruins que Deus não quer que aconteçam (pois Ele é amor), mas que devido ao pecado e ao tempo necessário para o findar da humanidade e retorno de Jesus, essas coisas ainda são permitidas. Isso também entra no assunto do livre arbítrio, mas não vamos explicar aqui pois o texto ficaria ainda mais alongado. Se você quiser saber mais sobre isso veja depois esses nossos outros artigos: aqui, aqui e também aqui.

Neste caso acima foi Satanás que tentou Davi para o destruir, portanto, quando a Bíblia (ou escritor: Samuel, Gade ou Natã) diz que Deus incitou a Davi, na verdade está dizendo que Deus “permitiu” que Davi fosse tentado por Satanás. Se fosse Deus que realmente tivesse incitado a Davi seria realmente uma contradição, pois como pode Deus ser contrário a Sua própria vontade (Deus não queria o censo em Israel e isso pode ser visto com o arrependimento de Davi logo adiante no próprio capítulo) e depois ainda punir seus servos por isso? O Senhor deixou isso tudo acontecer pois Davi estava naquele momento um tanto quanto arrogante em sua jornada como autoridade máxima sobre Israel e poderia levar o povo a uma decadência ainda maior.

Lembramos também que o livro de 2 Samuel foi escrito por volta do ano 931 a.C e o livro de 1 Crônicas foi escrito entre 425-400 a.C, por isso, o escritor de 1 Crônicas (provavelmente Esdras) já tinha um certo entendimento sobre a questão do mal e então retratou aquele que realmente incitou a Davi, ou seja, Satanás e não Deus.

Outros exemplos parecidos:

A história de Jó: eu belo exemplo de tudo que escrito até aqui é o livro de Jó, que relata todo mal que sobreveio sobre este homem. Mas não foi Deus quem enviou o mal, Ele apenas permitiu que Satanás enviasse o mal sobre Jó, pois sabia do caráter integro e da fé de Seu servo. Mesmo assim, quando lemos o que Jó falou, vemos que ele atribuiu o mal a Deus, assim como os demais hebreus faziam. Jó entendia que tudo, inclusive o mal, vinha de Deus e havia um motivo para tudo, ao qual ele não conseguia entender.

A morte de Saul: outro exemplo interessante está em 1 Crônicas 10:14 onde diz que foi Deus quem matou Saul. Já no verso 4 é relatado que Saul se matou. Ou seja, esta é a forma que os hebreus tinham de dizer que Deus permitiu que Saul morresse, pois foi este o caminho que o rei havia escolhido.

Segunda aparente contradição entre os livros 2 Samuel 24 e 1 Crônicas 21:
Qual era o verdadeiro número do exército israelita: 1,3 milhão de homens conforme 2 Samuel ou 1,57 milhão de homens conforme 1 Crônicas?

Vamos aos textos:

Então Joabe apresentou ao rei o relatório do recenseamento do povo; havia em Israel oitocentos mil homens habilitados para o serviço militar, e em Judá, quinhentos mil. 2 Samuel 24:9 (NVI)

E Joabe deu a Davi a soma do número do povo; e era todo o Israel um milhão e cem mil homens, dos que arrancavam da espada; e de Judá quatrocentos e setenta mil homens, dos que arrancavam da espada. 1 Crônicas 21:5 (NVI)

Entre esses textos há uma grande diferença de quantidade de homens que foram recenseados em Israel e Judá. Em 2 Samuel era 1,3 milhão de homens no total. Em 1 Crônicas era 1,57 milhão. Como explicar tal divergência?

A explicação dessa “divergência” não é tão simples, mas faremos o possível para trazer uma forma mais fácil de entender essa questão. Porém, tenhamos em mente que essa divergência não é uma contradição entre os textos, mas relatos separados do mesmo fato – o censo. Vamos explicar isso no decorrer do artigo.

É importante citarmos algo peculiar que está no texto original de uma das passagens:

2 Samuel 24:9

וַיִּתֵּ֥ן יֹואָ֛ב אֶת־מִסְפַּ֥ר מִפְקַד־הָעָ֖ם אֶל־הַמֶּ֑לֶךְ וַתְּהִ֣י יִשְׂרָאֵ֡ל שְׁמֹנֶה֩ מֵאֹ֨ות אֶ֤לֶף אִֽישׁ־חַ֙יִל֙ שֹׁ֣לֵֽף חֶ֔רֶב וְאִ֣ישׁ יְהוּדָ֔ה חֲמֵשׁ־מֵאֹ֥ות אֶ֖לֶף אִֽישׁ

1 Crônicas 21:5

וַיִּתֵּ֥ן יֹואָ֛ב אֶת־מִסְפַּ֥ר מִפְקַד־הָעָ֖ם אֶל־דָּוִ֑יד וַיְהִ֣י כָֽל־יִשְׂרָאֵ֡ל אֶ֣לֶף אֲלָפִים֩ וּמֵאָ֨ה אֶ֤לֶף אִישׁ֙ שֹׁ֣לֵֽף חֶ֔רֶב וִֽיהוּדָ֕ה אַרְבַּע֩ מֵאֹ֨ות וְשִׁבְעִ֥ים אֶ֛לֶף אִ֖ישׁ שֹׁ֥לֵֽף חָֽרֶב

Somente no texto de 2 Samuel 24:9 aparece um termo que pode ajudar a desvendar o aparente problema: é a palavra chayil (em hebraico חיל). Essa palavra significa “eficiência” em termos gerais e quando atrelada ao contexto de força militar (chayil, Strong 02428 pg. 533), denota qualificação.

O escritor de 2 Samuel estava preocupado em relatar especificamente a quantidade de homens prontos para o combate (soldados treinados). A tradução Nova Versão Internacional (NVI) da Bíblia traz esse termo muito bem empregado como “homens habilitados para o serviço militar“. A palavra chayil não aparece no texto de 1 Crônicas, pois ao que parece, o cronista estava relatando uma quantidade total de homens em Israel e Judá, tanto soldados quanto homens comuns que de alguma forma, também poderiam pegar em espadas se necessário.

O que ambos escritores desses livros fizeram foi simplesmente relatar a história que havia ocorrido de acordo com a informação que eles haviam recebido.

Aliás, o escritor de 1 Crônicas quase certamente tinha acesso ao livro de 2 Samuel ou sabia da história por meio da tradição oral e mesmo assim usou outra quantidade. Provavelmente ele não via isso como contradição, mas como complemento, baseando-se nas informações adicionais que ele tinha em mãos.

Há também algumas considerações que faremos para mostrar que este censo não foi exato e não teria como dar certo:

Primeiro: a quantidade relatada no censo que foi entregue a Davi não era exata, mas aproximada – isso pode ser percebido porque todos os números estão arredondados – e sabemos que num censo realista teríamos números quebrados.

Segundo: Joabe (responsável pelo censo) provavelmente estava contando todas as tribos como apenas uma – Judá, mas não quis contar os homens das tribos de Levi e Benjamin porque ele também era contrário a ordem do rei (conforme 1 Crônicas 21:6), então ele não contou todos os homens e não passou essa informação correta a Davi no relatório do censo.

Terceiro: aparentemente também não foram contados os homens da milícia pessoal de Davi, os 30 mil homens (conforme 2 Samuel 6:1).

Quarto: Davi não considerou o número de homens de 20 anos para baixo e nem se tem a quantidade deles relatada, também porque Joabe parou de contar quando veio a grande ira de Deus sobre Israel (conforme 1 Crônicas 27:23-24).

Conclusão

O censo que Davi solicitou foi um verdadeiro fracasso desde o começo e de todas as formas possíveis. Também pudera, já que não foi aprovado por Deus, como explicamos na primeira parte do artigo. Os textos que parecem contraditórios entre si apenas retratam as informações que os autores dos livros tinham em mãos, sendo o relato de 2 Samuel 24:9 de cunho mais específico para informação militar e o relato de 1 Crônicas 21:5 de cunho histórico, mais abrangente.

Quem incitou Davi a realizar o censo de Israel, Deus ou Satanás? E qual era o número real do exército israelita?
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